19 de Abril de 2017 | 20h25

Quem cala con(sente)?

Por Ronaldo Junior


Whatsapp

Mal acabei de almoçar, me ergui em direção à fila para pagar a conta. O número cáustico de pessoas à minha frente naquele momento do meio dia ensejava a exaustão que me controlava, mas me mantive de pé com certa má vontade para esperar minha vez.
E o comportamento humano é sempre algo que me chama a atenção. Chegava aos meus ouvidos um ruído de desavença, um rumor que se assemelhava a músicas ruins. Então não pude deixar de notar o casal que se fazia altissonante próximo a mim.

A moça de olhos espelhados era fitada hipnotizadamente pelo rapaz de olhos interessados por tudo quanto era dito. Pelo tom da voz dela, os olhos dele eram mentira.
Eu observava cada gesto pelo canto da vista tentando entender o que se passava.
Um relacionamento – que não compõe o enredo de um filme previsível ou de um livro clichê – é feito também de realidades duras e cortantes, capazes de machucar inclusive quem está ao redor.

Voltando-me a eles, percebi que o cara simplesmente não parecia estar ouvindo porque os olhos não são capazes de decodificar sons, e seus pensamentos possivelmente estavam ocupados demais em encontrar uma forma de reverter a situação – eu e minha mente inventiva, pensando tramas para o mundo real.

Os óculos dela refletiam distorcidamente o céu enquadrado pela janela aberta, e o reflexotornava ainda mais vivos aqueles olhos, como se o céu a quisesse tocar, tornando-a permanente parte dele em cândida luminosidade. Nada ao redor fazia sentido para os dois, olhavam-se em completa solidão, num silêncio estarrecido: acontece que eu não te amo mais, ela disse firmemente.

Acontece, comecei a pensar. Não amar era algo acidental, um acontecimento do qual não se podia fugir. Eu passei a olhá-los diretamente esperando uma reação dele, mas nada foi dito, e um frio repentino passou por mim, o frio de um momento insensível, o frio de uma falta de reação.

A fila andava, e eu continuava a pensar no casal, tentando olhá-los de onde eu estava. Foi quando ela se levantou, e eu pude ouvir nitidamente as palavras indignadas de quem pôs pra fora algo tão grave,e nada ouviu além do silêncio, se você não disse nada, é porque também não me ama, e passou por mim em rápidos passos sem se voltar para trás.

Então me virei para olhá-lo e pensei por um instante naquele silêncio. Quantas palavras o teriam motivado? Quantos sentimentos o teriam sufocado? Quantas mágoas foram desveladas naquelas duas almas durante poucos momentos?

Relacionamentos – em regra – são criados por conjuntos de palavras, declarações, exposições, fragilidades. Mas o fim é demonstrado silenciosamente – estampido. E tudo termina. Ali, terminou porque ela declarou que não o amava, e ele nada disse.
Por isso, quem cala nem sempre consente. O silêncio pode ser uma súbita estupefação, um abismo, um ressentimento, um vão. Pode guardar muito mais palavras que uma frase inteira conseguiria expressar. É uma profundidade de sentido completo.

Estudante de Direito do Uniflu e membro da Academia Pedralva Letras e Artes Site: RHBJ10.wix.com/RHBJ