18 de Maio de 2017 | 22h55

Antonio Candido: um grande humanista

Por Benedito Antunes


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A morte do Professor Antonio Candido, em 12 de maio deste ano, deve ser lamentada, mas pode também ser tomada como ocasião para recordar sua bela figura e principalmente para refletir sobre sua obra. Ele foi, como poucos, um humanista convicto, que aplicou seus princípios em tudo o que fez, e não fez pouco ao longo de sua vida. Foi professor, pensador e militante político, tendo em todas essas atividades uma atuação notável, que quase não encontra paralelo.

Como professor, foi carismático pela inteligência, humor e clareza na exposição da matéria. Suas aulas sempre atraíram inúmeros alunos e mesmo colegas, que não perdiam a oportunidade de sorver os conhecimentos generosamente ali distribuídos e, de quebra, aprender um pouco com ele a ser professor. Como pensador, deixou uma obra incomum, da qual talvez a Formação da Literatura Brasileira (1959) seja o título mais expressivo, pela originalidade, densidade e atualidade. Costuma ser citado como um dos estudos fundamentais para se entender o Brasil. Mas há também o clássico Os parceiros do Rio Bonito (1964), sua tese de Sociologia, e Literatura e Sociedade (1965), em que expõe seu original método de análise da obra literária. Como militante político, lutou incansavelmente pela igualdade social em várias frentes, tanto escrevendo textos “de ocasião” como atuando partidariamente. Além de militante do antigo Partido Socialista Brasileiro, foi um dos fundadores do PT, por acreditar que esse partido poderia contribuir para a diminuição da injustiça social no País.

Antonio Candido ingressou na carreira acadêmica em 1942, como professor de Sociologia, mas em 1958 passou a ensinar Literatura Brasileira na recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, que ajudou a criar. Costumava repetir a amigos que era grato a essa Faculdade por lhe ter dado a oportunidade de dedicar-se à sua maior vocação: os estudos literários. A esse propósito, declarou em 2012 que foi no Segundo Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária, realizado em Assis, em 1961, que expôs os princípios de seu conhecido método crítico, num “primeiro esforço para mostrar como é que o externo se transforma em interno, como é que o social e o psíquico deixam de ser social e psíquico para se tornarem realidade estética”.

Com a mesma clareza dispensada às aulas, Antonio Candido dedicou-se aos ensaios, muitos dos quais se tornaram referência obrigatória para o estudo de autores e temas e mesmo para a constituição de um método de análise literária. Nesse sentido, “Uma dialética da malandragem” (1970), dedicado a Memórias de um sargento de milícias, mudou a história desse romance e colocou em prática de forma consistente e sugestiva a metodologia de leitura da obra em sua relação com a história e a sociedade, que ele vinha elaborando desde a década anterior.

Antonio Candido formou muitos professores e intelectuais brasileiros. Deixou, na verdade, uma tradição da crítica dialética no Brasil. Muitos de seus textos tornaram-se populares, não apenas porque são lidos nas salas de aula, mas porque emprestam argumentos e métodos a muitos leitores que buscam neles esclarecimentos sobre literatura, cultura brasileira, política, humanismo. Suas ideias sobre a literatura como um direito humano são pioneiras e de larga aceitação no âmbito das ciências humanas. Nos ensaios em que trata do assunto, consegue uma das façanhas só possíveis a um grande intelectual que nunca perdeu o chão da história e das contradições de seu tempo: expor a um público heterogêneo as questões mais urgentes do ponto de vista social e artístico sem perder o rigor e o equilíbrio que elas exigem.

Por tudo isso, pode-se dizer que a figura de Antonio Candido não encontrará um substituto tão cedo. Não é nenhum exagero afirmar que foi único na interpretação do Brasil por meio da literatura e da cultura. Seu estilo claro, elegante, envolvente, cultivado conscientemente como parte de sua missão de professor, serviu para enfrentar as principais contradições de seu tempo com extremo respeito ao próximo, discutindo ideias e fenômenos, e não pessoas, tornando-se, por isso, uma verdadeira unanimidade entre os que o conheceram como aluno, amigo ou leitor.

Mesmo depois de afastado de suas atividades profissionais, Antonio Candido continuava ativo, recebendo pesquisadores, colegas e amigos. Conversar com ele continuou sendo uma atividade cativante e prazerosa. Sua prodigiosa memória lhe permitia evocar fatos, personalidades artísticas e históricas com rara lucidez. Ultimamente, segundo costumava dizer, mais relia do que lia. Machado de Assis era seu preferido nessa atividade. E a esse respeito afirmou certa vez que o escritor era bom em qualquer língua, independentemente da tradução. Sempre muito agudo em suas observações, Antonio Candido nunca perdeu o humor e a visão otimista que alimentava do homem. Para ele, apesar de tudo, havia progresso em sua história, uma espécie de triunfo do socialismo, perspectiva que resumia seu ideal de humanização. 

Professor de Literatura Brasileira da UNESP de Assis


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