14 de Maio de 2017 | 13h37

Psicólogo Salvador Correa, especialista em saúde coletiva, fala a O Diário sobre seu trabalho na ABIA e ativismo

Número de infectados pelo vírus volta a subir


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Léo Menezes

O número de infectados pelo vírus da aids voltou a subir no Brasil, conforme dados do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids). A população vivendo com a doença no País passou de 700 mil, em 2010, para 830 mil em 2015, com 15 mil mortes por ano. Um assunto preocupante, mas pouco comentado, pois ainda existem muitos tabus que o envolve. E a situação, em Campos, não é diferente. O município ocupa o 16º lugar no índice composto e 29º lugar em incidência de aids. Depois da Região Metropolitana, o Norte Fluminense é onde mais tem incidência de HIV no estado. Mais de 40 pessoas morrem em Campos por ano em função da Aids. Nossa equipe de reportagem conversou com Salvador Correa, psicólogo, especialista em saúde coletiva, mestre em Saúde Pública pela FIOCRUZ, e ativista do movimento da Aids. Ele já escreveu um livro contando a sua história como soropositivo, e atualmente coordena a área de Treinamento e Capacitações da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids, atuando no acolhimento de pessoas recém diagnosticadas.

O Diário (OD) - Como funciona o trabalho realizado na ABIA e qual a sua função na ONG?
Salvador Correa (SC)-
A ABIA, Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids, é uma Organização Não Governamental fundada por Herbert de Souza (Betinho) em 1987, visando impulsionar uma resposta à epidemia de AIDS no país. Atualmente sou responsável pela área de Treinamentos e Capacitações da organização, com o objetivo de fornecer subsídios para ampliar o debate sobre os desafios que cercam a epidemia de HIV junto à sociedade civil, governos e empresas. Nesses 30 anos, a ABIA tem protagonizado uma série de ações da sociedade civil no campo da prevenção, tratamento, acesso a medicamentos, diversidade sexual, sexualidade e direitos humanos. O amplo diálogo entre sociedade civil e governo, permitiu no passado algumas conquistas importantes que fez com que o Brasil se tornasse referência internacional na resposta à epidemia. Nos últimos 15 anos o país perdeu essa capacidade de responder à epidemia - que segue crescendo de forma preocupante no país.  

OD - Como você avalia as políticas públicas no Brasil em relação a prevenção e esclarecimento sobre a doença? Evoluímos em algum sentido? O que ainda precisa mudar?
(SC) -
Evoluímos, retrocedemos e justamente no momento em que temos novas formas de prevenção temos inúmeros desafios que esbarram no conservadorismo. Certamente as experiências do passado foram muito valiosas pois mostraram como a resposta social é importante na prevenção. O próprio surgimento da camisinha como forma de prevenção veio da população, e não um conhecimento médico como muitos pensam. Quando a epidemia surgiu, não se sabia muito sobre a doença e a ciência pregava abstinência sexual em relações sexuais com soropositivos. Pelo amor, os parceiros negativos nas comunidades gays começaram a usar camisinha com seus companheiros positivos e começaram a perceber o potencial dela para a prevenção. Quando o saber médico assume a camisinha como eficiente a partir dessas experiências ele começa a “prescrevê-la” como prevenção. As comunidades precisam resgatar seu papel na prevenção. Precisamos exercitar mais a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, exercendo a solidariedade. Não cabe a ninguém julgar as pessoas por suas práticas sexuais, nem orientação. O papel do governo e da sociedade civil deve ser o de garantir acesso à saúde de forma plena – que é um direito constitucional de TOD@S, sem nenhuma distinção. Nesse sentido ainda precisamos evoluir muito. Hoje temos além da camisinha outras formas de prevenção biomédica. Hoje sabe-se que uma pessoa com HIV em tratamento e com carga viral indetectável por mais de 6 meses praticamente não transmite o vírus.

OD - Como funciona a profilaxia?
(SC) -
Profilaxia Pós-Exposição (PEP) – o uso de medicação antirretroviral, após contato com o vírus, pode reduzir as chances de infecção. Ex.: se a camisinha estourar e um dos envolvidos na relação sexual tem HIV, a pessoa que não tem o vírus deve procurar um serviço de saúde e fazer o uso de medicação por 28 dias. O ideal é que o uso desses remédios seja feito o quanto antes, não devendo ultrapassar o tempo de 72 horas após a relação sexual.

Profilaxia Pré-Exposição (PREP): uso contínuo de medicação antirretroviral antes de uma relação sexual pode prevenir a infecção por HIV. No Brasil ainda não está disponível no SUS, mas já existem sérias instituições públicas brasileiras pesquisando essa forma de prevenção.

OD - O que te motivou a abraçar essa causa?
(SC) -
Desde muito jovem eu já tinha muita empatia pela causa. Lembro-me, que ainda criança ouvi pela rádio a morte de Cazuza pelo rádio do carro de um tio. Lembro que na mesma hora meu tio falou: “menos um viado aidético”. Essas frase me causou uma dor inestimável, como se eu pudesse sentir pelo Cazuza um pouco do estigma e preconceito que ele vivenciava. Naquele dia percebi que brotava em mim a solidariedade e empatia pela causa. Alguns anos depois, já no ensino médio, visitei em Campos a Casa Irmãos da Solidariedade e, nessa ocasião, fiz uma reportagem sobre HIV em parceria com um colega de turma. Percebi como essa abertura da escola me ajudou a refletir sobre essa situação e de alguma forma, contribuiu para minha formação social acerca do HIV.
Em 2011 eu me descobri com o vírus, e vi que a vida me levava cada vez mais a me envolver com a causa na luta pela prevenção, tratamento e, especialmente, pelo fim da discriminação. Hoje faço inúmeros acolhimentos de pessoas recém diagnosticada além oferecer um serviço particular de orientação psicológica on line – www.psicologiaviva.com.br/salvadorcorrea

OD - Ainda existe muitos tabus envolvendo o HIV?
(SC) -
Sim. É impressionante que mesmo após 35 anos de epidemia ainda tenhamos tantos tabus acerca da epidemia de HIV. Esses tabus são realmente graves e acabam se tornando barreiras na prevenção ao HIV. Percebemos uma grande dificuldade de se trabalhar com prevenção nas escolas e com grupos e populações vulneráveis (em função de estigmas que acometem jovens gays, profissionais do sexo e pessoas trans). Algumas pessoas, influenciadas líderes religiosos irresponsáveis, chegam a parar de tomar medicamentos antirretrovirais com promessa de cura. Felizmente existem muitas organizações (religiosas, associações de moradores, ONGs) que trabalham na tentativa de desmitificar tabus e ampliar horizontes.  

OD - Quais seriam os grupos mais infectados?
(SC) -
Nos últimos a população de jovens entre 15 a 24 anos estão se infectando mais por HIV no país, especialmente jovens gays e mulheres trans/travestis. Alguns grupos já foram afetados pela epidemia como profissionais do sexo, mulheres, população idosa, bebês (transmissão vertical – da mãe para o filho). No entanto, a epidemia não possui um grupo-chave. Ela circula entre diversos grupos da população e pode afetar qualquer pessoa sexualmente ativa e por isso é importante conhecer as formas de prevenção e falar sobre e fazer o teste (lembrando que o tratamento também pode prevenir a transmissão para o parceiro, e também para o bebê – no caso das grávidas).

OD - É possível avaliar como está a situação em Campos e região? Muitas pessoas ainda estão sendo infectadas?
(SC) -
Segundo o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde Campos está entre 52º lugar entre todos os municípios do Brasil com mais de 100 mil habitantes. Esse dado mostra que a cidade ainda precisa ampliar os esforços para controlar a epidemia. O informe epidemiológico 01/2015 da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro também traz uma situação preocupante, aponta que Campos ocupa o 16º lugar (dos 92 municípios) no índice composto (que incluí incidência, mortalidade e transmissão vertical) e 29º lugar em incidência de AIDS. Campos tem um alto percentual de novos casos com contagem inicial de CD4 inferior a 200 cel/mm (SISCEL/MS) sugerindo um diagnóstico tardio e uma necessidade de ampliar a testagem. Depois da região metropolitana, o norte fluminense é onde mais tem incidência de HIV no estado. Mais de 40 pessoas morrem em Campos por ano em função da AIDS.  

OD - Qual seria o maior desafio dos portadores de HIV, aqui em Campos?
(SC) -
Muitos dos desafios são compartilhados em todo o país, como a situação do estigma e discriminação que ainda afetam muitas pessoas que vivem com HIV. Em Campos não é diferente. Muitas pessoas ainda têm medo de que descubram a sua sorologia em função dessa situação. Não é incomum a existência de rótulos e piadas estigmatizam as pessoas com HIV. Precisamos resgatar o potencial que todos temos de empatia e solidariedade para superar essas barreiras sociais que possuem grande impacto na qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV em Campos.

OD - É possível ter uma vida realmente normal com HIV?
(SC) -
É totalmente possível viver normal com HIV. Os cuidados referem-se à necessidade de tomar uma medicação todos os dias, alimentar-se bem e fazer exercícios físicos. Uma pessoa com HIV pode e deve ter uma vida sexual ativa, ter filhos se desejar, receber e dar amor e levar uma vida totalmente normal.

OD - O que mudou de forma positiva e/ou negativa em relação ao HIV nos últimos anos?
(SC) -
De forma positiva posso ressaltar a incorporação de novas medicações para tratamento em 2017, a possibilidade de termos uma nova forma de prevenção no SUS em pouco tempo (PrEP), o envolvimento de novos ativistas que lutam contra a epidemia através do youtube, facebook e música. Nesse sentido recomendo a todos assistirem ao videoclipe recém lançado Olhos Amarelos – Silvino: https://www.youtube.com/watch?v=6R3-7iWYlQc
De forma negativa posso citar o retorno do conservadorismo na política que tem afetado negativamente muitos aspectos da epidemia no Brasil, incluindo a liderança do país que é onde as pessoas mais se infectam e morrem em toda América Latina.  

OD - Muitos boatos e mentiras são disseminados nas redes sociais em relação ao HIV. Como vocês trabalham pra esclarecer essas informações? Quais são esses boatos?
(SC)  -
Recentemente temos visto uma série desses boatos retornando através de falsas histórias pelo whatsapp e facebook, como bananas com sangue infectado, falsos enfermeiros em teste de glicose com agulhas infectadas, mutamba como cura do HIV. Recentemente o ministério da saúde lançou um importante cartaz desmistificando essas questões. Lamentavelmente ainda existem muitos boatos, mentiras circulando sobre HIV e a AIDS. Alguns como os citados acima têm uma origem maldosas por pessoas que circulam mentiras na Internet. No entanto eles bebem na fonte do medo existente na sociedade,criado pelo pânico moral oriundo do conservadorismo refletido, por vezes, em algumas campanha contra o HIV que usam o terror como forma de prevenção. A prevenção pelo medo se mostrou ineficaz, basta olhar os dados epidemiológicos – 1.900.000 pessoas infectadas no mundo só em 2015.

A prevenção pelo medo faz ainda menos sentido diante de tantas novas informações e formas de prevenção. Precisamos ir além do “use camisinha” e utilizar dos avanços da medicina e das tecnologias. O Brasil precisa incorporar a PrEP imediatamente. Já lideramos o ranking de novas infecções na América Latina e Caribe. Vergonha! Se não mudarmos nossa forma de pensar e agir no campo da saúde, além de legitimar visões ultrapassadas que violam direitos (no caso o direito de acesso à saúde) estaremos fadados a continuar no fracasso da prevenção, como vemos nos últimos anos.

OD - Faça um breve resumo do seu livro, no sentido da motivação que levou você a escrever, e os processos de produção.
(SC)  -
Quando descobri o HIV em 2011 eu comecei a recebeu um diário como forma de deixar fluir alguns pensamentos e elaborar esse momento tão difícil que é o diagnóstico. Com isso, comecei a publicar os textos em um blog e, por fim, resolvi publicar os textos no meu livro “O Segundo Armário: diário de um jovem soropositivo”. Hoje o livro está disponível para download gratuito na Internet e a versão impressa pode ser adquirida no site da editora Autografia. 


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